Sempre me venderam que o Bitcoin é 100% neutro, e durante muito tempo eu comprei. O código não discrimina, não pergunta quem você é, de onde você vem ou quanto você tem no banco. Matemática pura substituindo os banqueiros e os políticos. Parece perfeito, não? Mas ultimamente eu duvido mais do que nunca, e acho que é bom abrir o debate sem dogmas.
A sociedade atual tem uma fé quase religiosa na tecnologia: se colocarmos em um algoritmo, torna-se objetivo, justo, imparcial. O Bitcoin seria o exemplo máximo disso. Mas vamos pensar por dois segundos: cada linha de código foi escrita por pessoas com valores, interesses e um contexto muito específico (principalmente cypherpunks libertários dos anos 90/2000 nos EUA). Não surgiu do nada. A matemática é neutra, sim, mas o que se supõe sobre a aplicação dela... nem tanto.
Na prática, o protocolo não conhece seu nome, nem sua bandeira. Qualquer um com internet pode rodar um nó ou fazer uma transação. Isso é verdade e é poderoso. Mas veja a estrutura de incentivos: a mineração recompensa quem tem mais hashpower, ou seja, mais dinheiro para equipamentos e energia barata. A nova emissão vai para aqueles que já investiram pesado. Quem chega tarde ou com pouco capital começa em desvantagem brutal. Não é maldade do código, é o design: escassez absoluta mais soberania individual mais zero intervenção. Isso não é neutralidade; é uma ideologia absoluta em Bytes.
Estou preocupado que ao repetir "o código é lei" e "é neutro, ponto" lavemos as mãos das consequências reais. Se o sistema termina concentrando mais riqueza em poucas mãos (Whales que compraram barato em 2010-2013 ou mineradores industriais), ou deixa de fora a maioria que não tem para investir de entrada, não estamos falando de neutralidade material. É neutralidade formal: as regras são iguais para todos... mas o ponto de partida nunca foi.
E nem falamos da brecha digital. Nem todos têm acesso estável à internet, eletricidade barata ou o conhecimento para gerenciar Wallets sem intermediários. No final, muitos acabam confiando em Exchanges ou custodiais que replicam os mesmos vícios dos Bancos tradicionais. A tecnologia não elimina intermediários; a desloca. Dito isso, o Bitcoin tem coisas que nenhum banco ou governo pode igualar: é aberto, auditável por qualquer um, e uma vez que você está dentro, ninguém pode mudar as regras arbitrariamente para prejudicá-lo em particular. Isso o torna mais resistente e, de certa forma, mais "justo" a longo prazo do que um sistema onde depende de quem está no poder.
Para mim, a verdadeira neutralidade estaria em que todos pudéssemos começar de um lugar parecido, mas no mundo real isso não acontece. O Bitcoin não é um espelho limpo; reflete os valores de quem o criou e de quem o adotou mais cedo. Não é nem o demônio nem o salvador neutro que alguns pensam. É uma ferramenta brutalmente eficaz com uma filosofia por trás, e é bom reconhecer isso, para usá-lo com os olhos bem abertos.
FIM.
O que vocês acham? Acreditam que a neutralidade é real, ou é uma narrativa bonita que contamos para não discutir o incômodo? Estou interessado no debate, sem fanatismo.
@PabloDAgata
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