Os primeiros meses de 2026 confirmaram uma tendência que os analistas vêm antecipando: a degradação do valor das moedas não é um fenômeno homogêneo, mas avança de maneira sustentada nas principais economias globais. Entendemos por degradação monetária o processo pelo qual o poder de compra de uma moeda se erosiona, seja por inflação interna, desvalorização em relação a outras moedas ou uma combinação de ambas.
Neste artigo, analisamos a evolução dos últimos três meses (dezembro de 2025 - fevereiro de 2026) a partir dos dados mais recentes publicados por bancos centrais, institutos de estatística e organismos financeiros internacionais.
Estados Unidos: a inflação cede, mas o dólar se ressente
O dado mais relevante deste período foi a publicação do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) de janeiro nos Estados Unidos. A inflação anual desacelerou para 2,4%, seu nível mais baixo desde maio de 2025, o que representa um alívio após os dois meses anteriores com taxas de 2,7%.
No entanto, esse alívio no dado geral esconde alguns sinais de alerta. A inflação subjacente (que exclui alimentos e energia) caiu para 2,5%, a mais baixa desde março de 2021, mas em termos mensais subiu para 0,3%, o que indica que certas pressões persistem. Essa moderação se deve principalmente à queda dos preços energéticos (-0,1% em relação ao ano anterior) e a uma desaceleração em habitação e alimentos.
Paralelamente, o dólar americano mostrou sinais de fraqueza. Segundo análises do Bank of America, o índice do dólar caiu mais de 10% durante o último ano, e as preocupações sobre a "acessibilidade" e a política monetária estão gerando riscos de baixa para a moeda. Os analistas apontam que a posição dos investidores continua sendo curta no dólar, embora não tão extrema quanto na primeira metade de 2025.
O diagnóstico estrutural: dívida e degradação como estratégia
Para entender o contexto desses três meses, é chave a análise de José Luis Cava, que aponta para um problema de fundo: o sistema fiscal e de dívida dos Estados Unidos "está quebrado". Com um déficit de 0,7 trilhões de dólares em apenas quatro meses e uma dívida projetada de 64 trilhões em dez anos, a degradação monetária não é um acidente, mas uma saída prevista.
Segundo essa análise, a estratégia para financiar a dívida passa por um caminho triplo: degradação monetária, emissão maciça de dívida e venda do relato de um crescimento econômico acelerado apoiado na inteligência artificial. Nesse contexto, o ouro experimentou aumentos "parabólicos" que depois se estabilizaram, precisamente para permitir que os bancos centrais continuem comprando.
América Latina: o contraste entre a desaceleração e a persistência inflacionária
O panorama latino-americano apresenta realidades muito distintas nesses três meses. No México, o Banco do México (Banxico) pausou em fevereiro seu ciclo de cortes de taxas, mantendo-as em 7%. A decisão responde ao fato de que a inflação subjacente ainda está fora da faixa alvo, situando-se em 4,47% ao ano na primeira quinzena de janeiro, acima do limite superior de tolerância de 4%.
O Banxico ajustou suas previsões e agora espera convergir para a meta no segundo trimestre de 2026, afetado ainda por novos impostos sobre bebidas açucaradas e tarifas sobre produtos chineses que podem ter efeitos inflacionários.
No extremo oposto, a Argentina continua enfrentando um cenário de alta inflação. As expectativas de inflação para os próximos doze meses aumentaram significativamente em fevereiro, alcançando uma média de 35,7% a nível nacional, o que representa um salto de 4,2 pontos percentuais em relação a janeiro. Esse aumento nas expectativas coincide com o oitavo mês consecutivo de aceleração do IPC e com aumentos semanais em alimentos que na terceira semana de fevereiro atingiram 0,5% apenas nesse item.
A percepção da população reflete esta realidade: os entrevistados pela Universidade Torcuato Di Tella perceberam uma inflação passada de 38,4% em média, e as regiões de menores rendimentos são as que mostram expectativas mais elevadas, provavelmente pelo maior peso dos alimentos em sua cesta de consumo.
O bolso dos cidadãos: quando os rendimentos não são suficientes
A degradação monetária tem sua tradução mais direta na perda de poder aquisitivo das famílias. Na Argentina, um relatório da consultoria Empiria revela que os gastos fixos já representam quase 23% dos rendimentos, um aumento de 7,4 pontos percentuais em dois anos.
Em novembro de 2025, a renda disponível caiu 1% real, a maior diminuição desde fevereiro de 2024, encadeando três meses consecutivos de retrocesso. Todos os salários foram reduzidos em termos reais: os registrados caíram 0,6% (terceira contração consecutiva), e os do setor privado formal caíram 0,3%.
A isso se soma que as parcelas de créditos absorvem 26,3% da massa salarial registrada, o nível mais alto em quase duas décadas, e a inadimplência em créditos bancários alcançou um recorde de 8,8%. Esse endividamento de curto prazo evidencia a necessidade das famílias de obter liquidez imediata para sustentar seu consumo.
Europa: estabilidade aparente com riscos latentes
Na zona do euro, os dados preliminares de fevereiro mostram uma relativa estabilidade. O indicador preliminar do IPC na Espanha se situa em 2,3% para fevereiro, mantendo a taxa de janeiro, embora a inflação subjacente suba uma décima, chegando a 2,7%. No entanto, o BCE expressou sua preocupação com os riscos de fragmentação geoeconômica e seu impacto na estabilidade financeira, o que poderia resultar em novas tensões sobre o euro nos próximos meses.
Conclusão: um cenário de "guerra de capitais"
Os últimos três meses confirmam que estamos nos movendo em direção a um cenário de competição global por capital, onde a degradação monetária se perfila como uma ferramenta - implícita ou explícita - para gerenciar os altos níveis de dívida soberana.
Enquanto os Estados Unidos moderam sua inflação, mas permitem certa desvalorização do dólar para sustentar sua manufatura e facilitar o pagamento de sua dívida, a América Latina enfrenta o desafio de conter expectativas inflacionárias em um contexto de rendimentos reais enfraquecidos. A Europa, por sua vez, tenta manter a estabilidade de preços enquanto aumenta a incerteza geopolítica e comercial.
Para o cidadão comum, a degradação monetária não é um conceito abstrato: se traduz no fato de que seus rendimentos valem menos, suas dívidas pesam mais e sua capacidade de planejar o futuro se reduz. E segundo todos os indicadores, essa tendência continuará sendo a nota dominante nos próximos meses.



