Fraudes por personificação não são novidade no mercado cripto. O que mudou em 2025 foi a escala, a precisão e a eficiência. Com o apoio de ferramentas de inteligência artificial, criminosos passaram a operar com um nível de organização e profissionalismo que elevou drasticamente o impacto desse tipo de ataque. Dados citados por veículos especializados, com base em análises on-chain, indicam um salto expressivo nesse formato de golpe ao longo do último ano.

As perdas estimadas no setor reforçam a gravidade do cenário. Já não se trata de casos isolados ou de amadores tentando a sorte. O problema ganhou dimensão industrial.

Esse contexto exige um ajuste de perspectiva. O protocolo do Bitcoin continua tecnicamente sólido. A fragilidade não está na criptografia, mas no comportamento humano. O ponto crítico é a interação: o momento em que alguém clica em um link, conecta uma carteira, aprova uma transação ou fornece uma credencial. Em cripto, a lógica é objetiva — as transações são rápidas e praticamente irreversíveis. Não existe botão de “cancelar” depois que a rede confirma.

É por isso que golpes de personificação funcionam tão bem. Eles não atacam o código; atacam a confiança. O criminoso assume a identidade de suporte de exchange, atendente de carteira, administrador de comunidade ou até influenciador conhecido. Em seguida, cria um cenário crível: uma tentativa de saque, um acesso suspeito, um bloqueio preventivo, uma verificação pendente. A vítima é direcionada a um ambiente controlado — site clonado, conversa privada ou página de validação falsa. O desfecho é sempre o mesmo: obtenção de senha, captura de seed phrase, conexão de carteira ou assinatura de autorização

Na maioria das vezes, a vítima não age por ingenuidade, mas por impulso. O fator decisivo é a urgência.

Receber uma mensagem dizendo que há uma movimentação suspeita e que é preciso agir em minutos gera ansiedade. O perfil parece oficial, a linguagem é impecável, a página é idêntica à original. Ao inserir login e senha, o usuário acredita estar se protegendo, quando na verdade está abrindo a porta.

A inteligência artificial potencializou esse processo porque eliminou sinais evidentes de fraude. Erros gramaticais, respostas desconexas e abordagens genéricas deram lugar a interações fluidas, coerentes e personalizadas. A IA sustenta a conversa, responde objeções e adapta o discurso ao perfil da vítima. O golpe deixou de parecer amador e passou a se confundir com atendimento legítimo.

Outro vetor recorrente envolve os chamados “drainers”, geralmente associados a promessas de airdrop, mint ou recompensas exclusivas. O usuário conecta a carteira e é solicitado a “assinar” uma transação para liberar o benefício. O detalhe é que, no ecossistema cripto, uma assinatura pode conceder permissões amplas, inclusive para movimentação futura de ativos. O investidor acredita estar confirmando algo simples, mas pode estar autorizando acesso ao próprio saldo.

Há ainda ataques menos visíveis, como o SIM swap. O celular perde sinal inesperadamente. Enquanto o usuário acredita ser uma falha técnica, alguém já está utilizando o número para redefinir senhas de e-mail e corretoras. Nesse cenário, a blockchain sequer é atacada diretamente. O elo vulnerável está nas credenciais centralizadas que servem como porta de entrada.

O crime digital evolui como um organismo adaptável. Estratégias que não funcionam são abandonadas. As que geram resultado são replicadas e refinadas. A IA acelera essa evolução ao permitir testes em larga escala, ajustes de abordagem e otimização de conversão. Quando um modelo se mostra eficiente, ele se espalha rapidamente.

Ao mesmo tempo, o lado defensivo também avança. Plataformas e empresas especializadas utilizam inteligência artificial para monitorar padrões de transação, identificar comportamentos fora do padrão e sinalizar riscos em tempo real. Em um mercado que opera 24 horas por dia, automação é essencial para reduzir danos e bloquear movimentações suspeitas antes que se consolidem.

Ainda assim, nenhuma tecnologia substitui disciplina individual. Segurança em cripto é, acima de tudo, processo. Não se resolve solicitação de suporte pelo mesmo canal que fez o contato inicial. Não se compartilha seed phrase em hipótese alguma. Não se clica em links enviados por mensagem sem verificação independente. E, diante de urgência extrema, a melhor resposta costuma ser pausar.

Boas práticas fazem diferença: separar carteira de uso cotidiano da carteira de reserva; armazenar valores maiores em hardware wallet; utilizar autenticação forte baseada em aplicativo em vez de SMS; testar transferências com pequenos valores; conferir sempre o domínio digitado manualmente. São medidas simples que criam camadas de proteção.

A própria IA pode servir como ferramenta auxiliar, ajudando a identificar sinais de engenharia social ou inconsistências em mensagens suspeitas. Mas ela deve ser apoio, não substituto do senso crítico.

No fim das contas, o Bitcoin continua sendo uma infraestrutura resistente. O que se tornou mais sofisticado foi o ambiente ao redor. O maior risco não está no protocolo, mas na decisão humana sob pressão. Em um cenário onde a inteligência artificial tornou a manipulação mais convincente e escalável, a principal linha de defesa continua sendo atenção, método e responsabilidade individual

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